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Amar, verbo intransitivo

Walter Barbosa

Resumindo em uma só lição o mistério do Universo – talvez porque seja a lição maior – o amor pode libertar ou prender, elevar ou diminuir, dependendo de como se manifesta em nós. Isso fica claro no belo texto da jornalista Carla Maiolino, a seguir.

Amor, segundo o dicionário, é um substantivo masculino e abstrato. Nessa perspectiva, ele se encaixa muito bem no amor derramado nos livros e filmes românticos ou dramáticos que temos disponíveis. Aceita perfeitamente a áurea onírica, idealizada ou religiosa em que nos acostumamos a envolvê-lo. Explica as diversas frustrações, tragédias e desequilíbrios causados em seu nome. Estimula a busca incansável pela alma gêmea, pela felicidade, pela satisfação, pelo prazer.

Esse amor é algo que não diz respeito às grandes verdades da alma, pois nasce do medo. Medo da solidão ou do julgamento. Esse amor cria o sentimento de separatividade, que em sua mais fanática expressão nos leva ao isolamento em seitas, grupos ou castas.

Aprendemos com a nossa professora de português que amar é um verbo – portanto ação – e que o sentido precisa ser complementado para que haja clareza na mensagem transmitida. Nós nos acostumamos a revestir o amor das formas mais variadas. Amamos com os sentidos as mais variadas coisas, aquilo que achamos possuir, acreditar ou defender.

Embotados pelos sentidos, acreditamos que o amor, aquele amor que precisa de complementos, é o que nos trará a felicidade. Acreditamos que Deus nos ama com algum complemento, algum adjetivo. Por fim, percebemos que esse amor nos torna menores. Então descremos do amor e nos frustramos.

Na ótica em que pretendemos analisar a ação de amar, usaremos a licença poética de Mário de Andrade que, desafiando os gramáticos, declarou: “Amar, verbo intransitivo”.

Amar, como condição básica para a jornada da alma, é um verbo que encerra em si o sentido completo de sua escolha. Se declaro: “Amo!”, apenas amo.  Não é uma declaração fácil, ou simples, mas a partir dessa escolha não há fronteiras, pois quem ama, simplesmente ama, longe de qualquer separatividade, com total abandono do EU.

Amar assim é fazê-lo com inteireza de alma. Não estou falando de amor. Falo de amar como força geradora de tudo aquilo que se manifesta nos mundos aparente e invisível. Tudo o que existe é projeção do profundo amar de Deus.

A Cabala nos ensina que Deus – amando profundamente sua criação antes mesmo que ela existisse – primeiro a abençoou, depois escreveu todas as coisas no Livro da Vida as quais em continuação foram formadas. Somos reflexos do amar divino.

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Se compreendemos que ele é puro amar, nos conscientizamos de que nosso destino também é amar. Ansiamos profundamente nos fundir com Deus no amar. Simplesmente amar como o pulso que sustenta toda a criação, nos tornando cocriadores do reino de Deus na Terra.

Amar intransitivamente. Esse é o porto de chegada de nossa jornada da alma. 

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Texto retirado da Revista Sophia edição 44

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