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Ser mãe num mundo em transição

“Amor por um filho é livre de expectativas. É como um portal, onde o amor cresce em nossos corações e todos aqueles que nos rodeiam são beneficiados.”

Por Samira Santana de Almeida*

Simone de Beauvoir (1908-1986), grande pensadora francesa, foi quem disse a célebre frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” É de grande valia pensar que não nascemos prontos, que vamos nos moldando conforme nossas vivências com as outras pessoas, com o ambiente em que nascemos, enfim, com nós mesmos. Diante desse fato, podemos perguntar qual o papel da maternidade e da paternidade nos dias atuais, quando as pessoas têm pouco tempo de convivência, diante de longas horas de trabalho, do trânsito, sem falar da febre tecnológica que invade nossas vidas, com computadores e celulares que tomam a maior parte do nosso precioso tempo.

Nesse sentido, coloco-me no lugar de questionar a respeito do exemplo que darei para meu filho. Uma criança precisa de mais atenção do que qualquer outra atividade que nos propomos a fazer, pois a qualquer momento ela pode se machucar, quebrar coisas, chorar, ter fome, sujar a fralda e assim por diante. É um trabalho contínuo, que requer um empenho energético altíssimo; por isso, é possível compreender que muitas pessoas não tenham a devida paciência para lidar com esses pequenos seres que nem ao menos sabem expor seus anseios de maneira clara. Diante disso, lembro-me de um ditado famoso: “Um exemplo vale mais do que mil palavras.” Como vou impedir que meu filho seja viciado em ver televisão se eu mesma sou condicionada a essa atividade desde a tenra infância? É nesse momento que entra o trabalho reflexivo, onde passo a questionar meus condicionamentos, compreendendo as heranças simbólicas recebidas de meus pais e do contexto em que vivi, para transcender e fazer diferente com meu filho. Muitas vezes nós apenas reproduzimos aquilo que nos foi ensinado, julgando certo aquilo a que já estamos acostumados e que, a princípio, não gera nenhuma consequência grave. No entanto, quando se trata de criar um ser humano para lidar com as intempéries da vida, o constante exame de certos hábitos faz toda a diferença. Resgatar as boas coisas que recebemos de nossos pais, sendo gratos por tudo que recebemos e aprendemos com eles, também é algo valioso.

Fala-se muito da terceirização da educação, como se as pessoas não tivessem mais disposição para educar seus filhos. Porém, o modo como nossa sociedade está estruturada leva a essa terceirização na maioria das atividades: deixamos de cozinhar para comer na rua; deixamos de limpar nossa casa e pagamos uma faxineira; deixamos de examinar nossa vida e vamos ao médico ou ao psicólogo para saber o que está acontecendo conosco. Ou seja, há um processo contínuo de desvinculação de nós mesmos com atividades que, a rigor, deveríamos exercer.Com a maternidade e a paternidade não poderia ser diferente. Tenho acompanhado alguns movimentos de resgate do contato de pais com filhos, que começa desde a gestação, abrange o parto e culmina na criação das crianças com a devida interação. Uma mãe em sintonia com seu filho e com seu companheiro é uma fortaleza poderosa frente aos estímulos constantes que tendem a nos preocupar: Como ficar rico? Como ser belo? Como ter a saúde perfeita? Como ser um profissional bem sucedido? É como se estivéssemos participando de uma corrida; quem chega primeiro é vitorioso. Contudo, será que precisamos correr? Será que o melhor não é justamente desacelerar? Cuidar intensamente de um filho requer um grande desapego de muitos ideais que nos foram impostos; requer doação, paciência, flexibilidade. Esses valores não costumam ser divulgados nos canais de TV e nem ensinados na escola. Por isso, ser mãe é um renascimento. É um resgate de virtudes que fazem muita diferença na nossa vida, principalmente para as pessoas com que convivemos. O amor por um filho é algo sublime, na medida em que é livre de expectativas, por não requerer nada em troca. É como um portal, onde o amor cresce em nossos corações e todos aqueles que nos rodeiam são beneficiados. Estar atento para esse processo é de suma importância, e é na convivência intensa com seres que são pura pulsão existencial que descobrimos esse universo de amor e doação de que o mundo tanto precisa.

* Bacharel em Filosofia e mestre em Bioética pela Universidade de Brasília; instrutora de yoga certificada pela Aliança do Yoga

Artigo extraído da Revista Sophia 67.

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