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Teosofia: um remédio para o mundo

O mundo dos seres humanos parece cada vez mais doente: mudanças climáticas, doenças físicas e mentais generalizadas, guerras. Como chegamos a esta situação? Além de desastres naturais nós acrescentamos desastres artificiais, causando extinção de espécies e tragédias ambientais.

E há um comportamento recorrente na história, qualquer que seja o local ou época: a guerra. Durante os últimos dez mil anos os homens sempre estiveram em guerra. Essa é provavelmente
a mais mortal das doenças que incorporamos aos nossos genes.

Atualmente observamos uma aceleração na degradação dos nossos ambientes naturais e sociais. Para fazer algo a respeito precisamos entender as causas de nosso comportamento e aplicar os remédios apropriados.

Na sociedade há fatores que moldam comportamentos. Tradições, religiões e filosofias forneceram, durante eras, os modelos de evolução do universo, inclusive da humanidade. A
ética e a moral associadas forneceram a abordagem para apoiar a vida em comunidade.

A gentileza amorosa, a humildade e o serviço aos outros eram requisitos para uma vida pacífica.

No entanto, a ciência e parte da filosofia se distanciaram, nos últimos quatrocentos anos, para se livrar de tudo que pudesse impedir seu desenvolvimento. A física e a metafísica, que estavam ligadas e forneciam uma consistente visão da realidade, se separaram. A ciência, livre de qualquer laço, passou a formatar a sociedade moderna com um novo modelo de realidade, impondo um novo paradigma baseado na filosofia materialista.

Economia e política estão tão interligadas e são tão imprevisíveis que nada parece capaz de parar o frenesi do “sempre mais para mim”, perpetuado sem controle. Isso porque um novo “deus” nasceu: a economia liberal global, guiada por crescimento perpétuo e lucros cada vez maiores, quaisquer que sejam as consequências – incluindo a ameaça à sobrevivência humana. Os ambientes naturais e sociais são sacrificados no altar do lucro. Mesmo a água, que a terra fornece de graça, é roubada por companhias multinacionais para ser vendida, com a complacência dos governos, privando o povo de um recurso básico de sobrevivência.

Religião, filosofia, ciência, economia e política são apenas palavras que representam conceitos e modelos mentais. Por si mesmas, não podem fazer muita coisa, mas têm um denominador comum: tudo o que acontece no mundo resulta de ações, que por sua vez resultam de pensamentos. E o perpetrador das ações tem nome: o ser humano. Vamos procurar algumas características fundamentais na evolução que possam ajudar a entender o comportamento humano quando atuando em comunidade.

Segundo a maioria das tradições e religiões, a realidade é una – Sat, o Absoluto, o Parabrahm dos Vedantinos.
Mas, por não conseguirmos uma compreensão direta Dele, nós conceitualizamos a realidade como múltipla e fragmentada. Isso é consequência direta da nossa limitada capacidade neste ciclo de desenvolvimento.

A Sabedoria Antiga dá a isso o nome de Absoluto, a Realidade Una, Sat, e de Sat a manifestação de todo o mundo emana e se desenvolve em uma jornada que envolve ciclos de involução e evolução. A Sabedoria Antiga ensina que o atual ciclo da humanidade está focado no desenvolvimento da camada mental, após o desenvolvimento das camadas física e emocional. Podemos sentir a aceleração, nos últimos séculos, com relação
ao intelecto, à filosofia do materialismo e suas consequências.

Essa fragmentação criou um ser desequilibrado; devido a seus ciclos de evolução passados, ainda muito influenciado por desejos naturais, mas agora equipado com a poderosa máquina das capacidades mentais, que criam a ilusão de que podem dominar a natureza.

A maioria das religiões do mundo dá muita atenção ao ego ou personalidade, seu modus operandi e os meios de superá-lo. Ele é como uma cristalização de energia em torno da qual nós parecemos girar, como a Lua ao redor da Terra; todas as nossas percepções parecem alimentá-lo e todos os nossos pensamentos parecem dele emanar.

Somos o resultado de ações passadas, e a maioria de nossas ações são reações contra o que quer que possa prejudicar o senso de “quem eu sou”. Somos egocêntricos e construímos uma fortaleza ao redor do nosso pequeno mundo pessoal para nos proteger de qualquer coisa que perturbe esse delicado equilíbrio. Concordamos em deixá-lo, mas só fortemente armados, apenas para obter algo que forneça mais prazer ou segurança para nós mesmos. E, quando retornamos à fortaleza, fechamos a porta para o mundo, porque pensamos poder ignorá-lo. No entanto, as paredes  continuarão a ressoar com a vibração do sofrimento até que nosso coração não seja mais capaz de suportar, porque o coração é o canal da mais poderosa força no universo, o amor, e não pode ser aprisionado para sempre. Porém, como em qualquer processo evolutivo, essa curva de  aprendizagem tem seu tempo para acontecer.

O que podemos fazer? A resposta comum a essa pergunta é a de que é impossível um indivíduo mudar o mundo. Então fazemos associações, definimos metas, desenvolvemos ações. Podemos exercer alguma influência sobre a evolução. Porém, mais cedo ou mais tarde nosso comportamento básico assume, a ganância e a corrupção sobem ao palco, vem a luta pelo poder e o movimento morre.

Podemos mesmo fazer alguma coisa como indivíduos? A Sabedoria Antiga diz que sim, desde que sejamos pessoas engajadas e comprometidas com a ação compassiva. A pergunta seguinte é: como? Felizmente temos bons manuais, herdados dos buscadores a quem chamamos de santos ou mestres. Todos pontam para o mesmo ensinamento, do qual a Teosofia é uma síntese: o ser humano é um dos estágios do ciclo divino de involução-evolução. O atual ciclo de desenvolvimento é um ponto crítico, o início da parte ascendente, onde a centelha divina está ressurgindo das profundezas do que chamamos matéria. Podemos participar ativamente desse florescimento divino com a reorientação de nossas energias em direção à luz.

Um dos passos mais importantes no caminho, se não o mais importante, está relacionado ao ego. É um passo essencial, mas não o final. Ele tem de ser superado para que sintonizemos todos os pensamentos, palavras e ações com a entelha divina no nosso coração. Isso pode parecer distante do nosso dia a dia. Podemos pensar que não temos tempo nem energia, mas isso só significa que ainda não somos suficientemente sensíveis ao sofrimento que nos cerca. Tentaremos minimizar nossa falta de conforto, para que a propriedade privada do ego não seja perturbada, até compreendermos que somos prisioneiros do ilusório senso de “eu”. Esse é o maior desafio que enfrentamos, mas é também a porta de saída para uma vida equilibrada e harmoniosa. Ninguém pode fazer isso por nós; é uma  abordagem puramente individual.

Podemos então resolver nossos problemas? Não imediatamente; de outro modo, todos já seríamos santos. Esta é outra pergunta interessante: tendo acesso a tantos ensinamentos, por que simplesmente não os colocamos em ação e damos fim ao sofrimento? Porque, exceto por alguns seres avançados, devemos obedecer às leis da natureza, e uma de suas características básicas é a inércia. Isso significa que devemos dar tempo ao tempo, mas significa também que é preciso ação para não deixar que a inércia dirija a evolução. Ler livros e ouvir palestras é confortável, mas todas as palavras do mundo serão letras mortas se voltarmos ao nosso comportamento usual. Agir exige a atitude de um guerreiro, uma vontade forte e inabalável.

Passos concretos podem ser dados individualmente, tão logo comecemos a nos ligar à nossa natureza profunda. Ações simples, baseadas no respeito e na compaixão, podem causar um impacto multiplicado exponencialmente. Essa é a nossa responsabilidade como herdeiros da Sabedoria Antiga.

Artigo Extraído da Revista Sophia Edição 78 págs. 40 a 42. Jacques Mahnich é conferencista e membro
da Sociedade Teosófica na Inglaterra.

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