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Um Planeta em Conflito

Vamos falar do conflito permanente entre os seres humanos, um assunto importante, pois busca a raiz da causa que coloca as pessoas em permanente desassossego, torna o sofrimento uma constante em sua vida e coloca o paraíso num patamar cada vez mais inalcançável. Faremos uma abordagem do conflito em seu significado geral, do conflito interno e de sua origem.

Conflito, segundo os cânones atuais, significa choque de interesses. Requer duas ou mais pessoas cujos interesses se choquem. Possui gradações. Em sua forma inicial é o contencioso, onde o mal estar surge, antagonizando os atores. Se os ânimos se acirram, ele passa para um nível mais grave: a crise. Para que seja esvaziado, o conflito requer a negociação, por meio da qual, se surgir o entendimento, ele será solucionado. Caso não seja resolvido na crise, ele passa à etapa final: o confronto.

Assim, vemos que o conflito, em escala ascendente de grau, começa no contencioso, passa para a crise e desemboca no confronto. O conflito inicia no antagonismo de vontades humanas que seguem essa escala. Essa regra é tanto válida em nível individual quanto para o de países. O mundo vive em conflito. O tempo todo temos notícias de contenciosos, de crises e de confrontos. Essa situação gera uma egrégora de ódio, medo e insegurança veiculada através da mídia, que a leva para cada lar, em qualquer ponto do planeta, dentro dessa imensa aldeia global chamada Terra.

Jiddu Krishnamurti diz que o conflito externo é um reflexo do conflito interno da pessoa (o que ocorre fora é uma projeção do que ocorre dentro). Segundo ele, o ser humano está em conflito permanente. Por quê?

Nascemos na plenitude do nosso ser; podemos dizer que nascemos em plena liberdade, porque a personalidade ainda não foi formada; está livre em nós o Ser Interno, que é puro, sem contaminação. Por volta dos sete anos, quinto princípio, Manas (Mente) infunde-se no novo ser humano, e a sociedade, em cujo seio ele nasceu, começa, por meio de seu instrumento – a educação –, a moldá-lo segundo os padrões desejados. O objetivo é torná-lo um membro “socialmente
aceitável”; do contrário, ele será marginalizado (o preço por não responder ao condicionamento). O processo de condicionamento começa no lar e é reforçado pelas escolas, até que a pessoa seja incorporada à sociedade e contribua para o status quo.

Dessa forma, o ser humano vai incorporando padrões e, para seu prejuízo, vai estruturando uma natureza imposta, adquirida, que se sobrepõe à sua verdadeira natureza. Como se isso só não bastasse, a Teosofia nos ensina que a essa natureza
soma-se à carga daquelas tendências que interferiram na evolução espiritual, em vidas anteriores, e que, não resolvidas, incorporam-se também ao novo eu do ser humano, a cada novo nascimento. É isso que os orientais chamam de Skandhas. É a conhecida explicação oculta de que “os nossos pecados não nos são perdoados”, mas
nós é que temos que eliminá-los. Eles constituem o lixo que vamos levar na nossa bagagem pessoal, até que nos livremos dele por nós mesmos.

Essas duas naturezas, a original e a adquirida – o verdadeiro Eu e o eu adquirido –, é que formam a base desse conflito permanente. Isso se resume no embate do que “realmente é” e do que “se pensa que se é”.

O Eu verdadeiro nos leva à consciência integrada do que nos cerca, apontando a Unidade no Ser, enquanto o outro nos leva à consciência fragmentária. Enquanto predominar a segunda natureza, o homem conhecerá dor e sofrimento, e sempre viverá correndo atrás da felicidade, sem ter êxito. O Eu verdadeiro conecta o homem ao cosmo, colocando-o em harmonia com a sinfonia universal, o segredo da felicidade. O falso eu coloca-o à parte de tudo que existe, criando a partição entre sujeito e objeto, isolando- o na contramão da lei que se
dirige à integração da consciência, no senso de que “tudo é Um, e Um é tudo”, na condução da multiformidade para a uniformidade.

Esse conflito permanente é um assunto de inegável importância, porque mostra a origem do confronto de dois componentes humanos. Encerramos com uma frase de Gautama Buddha: “Não existe conflito entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância.”

*Artigo extraído da Revista Sophia edição 77. Paginas 05 e 06. Ernani Eustáquio de Oliveira é coronel da Aeronáutica e engenheiro mecânico, com mestrado em Gestão de Projetos Estratégicos e doutorado em Ciências Políticas.

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