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Unidade na Diversidade

Contam os Upanishads que havia dois pássaros muito parecidos, na mesma árvore, sempre juntos. Um deles era quieto, reservado, sempre observando, um espectador; o outro pássaro era desassossegado, bicava diferentes frutos e seu humor sempre  mudava, dependendo do fruto que comesse. Se o gosto do fruto fosse bom, ele ficava feliz; se fosse ruim, seu humor mudava de imediato e ele ficava triste. Assim, estava sempre oscilando entre alegria e tristeza, prazer e dor. O outro pássaro era sempre o mesmo, jamais oscilava com as emoções. Tinha completo domínio sobre si próprio e não estava sujeito às influências externas.

Afastar-se do mundo é o caminho preferido pelos místicos indianos para buscar a paz e a felicidade. Mas, ao fazer isso, eles ficam expostos à acusação de escapismo. Pode o escapismo ser chamado de virtude? Supondo que o escapismo possa trazer paz e felicidade, ele deve ser encorajado? Não será a mesma coisa que covardia? Não vale mais a pena mergulhar no centro da batalha e ser morto do que se salvar fugindo?

Mas afastar-se do mundo não significa escapismo. Significa adquirir autocontrole e deixar de ser escravo das tentações. Significa estar na batalha sem, no entanto, se identificar com ela. Isso equivale a dizer que a pessoa deve manter uma atitude de desapego com relação a seu ambiente e até mesmo aos frutos de suas próprias ações. O que quer que faça, ela fará vigorosamente, da melhor maneira possível; contudo, tentará cultivar o sentimento de que suas ações não servem a si própria, mas aos outros.

O problema está em permitir que o eu domine. Se a pessoa trabalha para si apenas, ela só está fortalecendo os grilhões que estão em seus pés. Segundo a filosofia indiana, trabalhar para si mesmo leva à escravidão; trabalhar pelos outros leva à liberdade. No entanto, pode-se trabalhar para os outros e mesmo assim trabalhar vigorosamente? A pessoa não perde o interesse quando o trabalho é para os outros? 

Aqui a filosofia indiana é muito clara e enfática: a ideia de “eu” e do “outro” é errada. Somos todos um. A unidade da existência é crucial para essa filosofia; se você fere o outro, na verdade fere a si próprio.

A sugestão de se retirar do mundo se refere à ideia de retirar-se do mundo da dualidade. Deve-se recusar a dualidade e ver apenas a unidade sob a superfície dos eus, da ideia de “eu” e do “outro”.

A unidade é a unidade dos eus. Existe um único eu que é comum a todos. Esse é o denominador comum de tudo que existe; isso é chamado de “unidade na diversidade”.
Quando se está firmemente estabelecido no senso de unidade, consegue-se aceitar, com equanimidade, tanto o prazer quanto a dor, tanto o sucesso quanto o fracasso. Assim como ao dia segue-se a noite, a alegria é logo seguida da tristeza, mas a pessoa não deve se deixar oscilar entre os opostos. Ela deve tentar se desapegar de tudo à sua volta.

O pássaro que se retirou do mundo não está inerte; está vivo, mas se mantém intocado pelo prazer ou pela dor que  experimenta. Possui completo controle sobre si, de modo que o tumulto de sua conflitante experiência sensorial não o afeta.

*Artigo extraído da Revista Sophia edição 64. Págs.14 e 15. Swami Lokeswarananda foi cofundador da Missão Ramakrishna, na Índia, e secretário do Instituto de Cultura Golpark RKM.

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