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Viver com Inspiração

Há um aforismo que diz: “Conhecimento é poder.” Essa afirmação tem um certo apelo, porque parece estar de acordo com nossa experiência diária e com nosso senso comum. Cada vez que aprendemos uma nova habilidade ou utilizamos alguma informação, influenciamos o nosso ambiente para melhor ou pior. Nesse sentido, nosso conhecimento é poder. Mas é claro que conhecimento é um termo flexível, que pode abranger muitas coisas.

A palavra conhecimento pode significar uma variedade de coisas – o endereço da farmácia mais próxima, os dados de um experimento físico, a descrição do corpo astral. Embora diferente em conteúdo e qualidade, o processo de obter conhecimento é o mesmo. Os órgãos dos sentidos enviam impressões à pessoa. Segundo a ciência contemporânea, o sistema nervoso informa ao cérebro. Na tradição da Sabedoria Perene, que reconhece a primazia da consciência, o processo tem um alcance mais amplo. Os jnanendriyas (orgãos do conhecimento) transferem nossas percepções para camadas sempre mais profundas do nosso ser. O que começa como uma impressão física torna-se uma sensação, depois um sentimento, e então se combina com o pensamento. A característica distintiva da informação é que, não importa qual seja o assunto, a informação não transforma. Na melhor das hipóteses, é um fenômeno mental.

Para aqueles que estão continuamente engajados no processo de autotransformação, há uma hierarquia de percepção na qual o conhecimento é o primeiro passo. O desabrochar da consciência move-se do conhecimento para a compreensão, até chegar à sabedoria. O conhecimento é o construtor. Ele fornece estrutura, que é uma função da mente. A compreensão dá significado às estruturas que a mente constrói e é uma função de buddhi, a intuição espiritual. A sabedoria é como o espaço, que contém todas as coisas, define todas as coisas, mas não pode ser identificado por nenhuma nem por todas elas. É a natureza da realidade. Nas palavras de Krishna, “tendo penetrado este universo com um fragmento de mim mesmo, Eu permaneço”. Nós experiências isso como a percepção da realidade – o irreal conduz ao real.

A maioria de nós tem a necessidade de nos movermos para além da tendência da mente de obter informação, para a função mais profunda da mente iluminada por buddhi. Somente essa mente reflete a amplidão, criatividade, compreensão, liberdade e compaixão que caracterizam uma vida inspirada.

De tempos em tempos encontramos o termo “círculo vicioso”, que se refere a uma ação não inteligente que produz reações indesejadas, num ciclo fechado. O maior exemplo desse processo é o conceito de samsara, descrito como a roda de nascimento, doença, velhice, morte e renascimento. Nossa abordagem à compreensão aplica o mesmo princípio, mas ele poderia ser mais corretamente chamado de “círculo virtuoso”. Atos compassivos e amorosos evocam uma resposta de nossa natureza superior, iluminando nossos corações e mentes, que por sua vez permitem-nos agir com percepção e discernimento mais profundos. O processo autoiniciado de continuamente nos colocarmos na presença de pensamentos e emoções coloridos por amor é o que podemos chamar de “viver inspirado” – um processo que necessariamente resulta na  elevação da visão sintética, da percepção global, da compreensão oniabarcante e do senso de unidade a que chamamos compreensão.

Artigo extraído da Revista Sophia 72, págs. 22 e 23.

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